🇧🇷 Transtornos alimentares: como os nutricionistas podem ajudar?

Os transtornos alimentares são complexos e podem afetar cada pessoa de forma diferente, por essa razão os nutricionistas possuem um papel fundamental no tratamento do paciente. Cada paciente é único, mas existem alguns princípios que você, como nutricionista, pode seguir no acompanhamento nutricional destes pacientes.

Transtornos alimentares (TA) são problemas de saúde sérios e precisam de um tratamento cuidadoso para garantir a recuperação completa do paciente. Considerando que os TAs estão intimamente relacionados com a ingestão de nutrientes e o consumo alimentar, não é surpresa que os nutricionistas possuem um papel importante no tratamento e processo de recuperação.

Como profissional da nutrição, você pode trabalhar com os seus pacientes o reconhecimento dos sinais de fome e saciedade, ajudá-los a melhorar a relação que têm com a comida, e assegurar que consumam as quantidades adequadas de energia e nutrientes através de planos alimentares personalizados.

Esses, entre outros aspectos, fazem da sua atuação um aspecto vital na recuperação de um paciente. Mas de que outra forma você pode ajudar e o que você deve saber antes de atender um paciente com TA?

Antes de vermos como você, como nutricionista, pode ajudar um paciente com transtorno alimentar, vamos primeiro entender o que são transtornos alimentares, e quais são os mais comuns.

Conhecendo os transtornos alimentares

Um transtorno alimentar é um quadro psiquiátrico sério, caracterizado por uma perturbação persistente na alimentação ou no comportamento relacionado à alimentação (como a preocupação não saudável e exagerada com o peso e forma corporal), que resulta na alteração do consumo alimentar e em prejuízos significativos na saúde ou no funcionamento psicossocial [1].

Embora a causa exata dos transtornos alimentares seja desconhecida, pesquisas relatam alguns fatores que podem contribuir.

  • Genética: Os genes podem desempenhar algum papel no desenvolvimento de TAs. Estudos que avaliaram irmãos gêmeos mostram que quando um deles tinha um transtorno alimentar o outro teria 50% mais de probabilidade de também desenvolver [2].

  • Personalidade: Certos traços de personalidade (neuroticismo, perfeccionismo e impulsividade) estão frequentemente relacionados a um risco aumentado de desenvolver um TA [2].

  • Cultura: As pressões sociais em relação ao peso e formato corporal, assim como preferências culturais pela magreza e, ainda, a exposição às redes sociais podem levar ao desenvolvimento de TAs [2, 3].

  • Estrutura cerebral e aspectos biológicos: Embora os estudos não sejam conclusivos, alguns deles sugerem que alterações nos níveis de serotonina e dopamina do indivíduo podem ser um fator de risco para o desenvolvimento de TAs [4].

Tipos de transtornos alimentares

Os nutricionistas devem estar familiarizados com os diferentes tipos de transtornos alimentares antes de tentarem tratar ou acompanhar qualquer paciente. Embora existam muitos outros TAs, a seguir indicamos alguns dos que são mais frequentemente vistos e tratados.

Anorexia Nervosa

Este é o transtorno alimentar mais conhecido, no qual o paciente se autoavalia acima do peso mesmo que esteja severamente abaixo. Por norma, tende a desenvolver-se na adolescência ou início de idade adulta e afeta mais mulheres do que homens [5]. Os critérios diagnósticos e sintomas mais comuns incluem [1]:

  • Padrões alimentares restritivos;
  • Medo intenso do ganho de peso;
  • Distorção da imagem corporal;
  • Estar significantemente abaixo do peso adequado.

Pessoas com anorexia nervosa tendem a restringir o consumo alimentar por longos períodos (jejum), fazer exercícios de forma excessivo e/ou fazer dietas extremamente restritivas. Se não tratada, pode levar a perda de massa óssea, enfraquecimento de unhas e cabelos, e até à infertilidade, sendo que casos mais graves podem resultar em falência cardíaca, cerebral ou de múltiplos órgãos [6].

Bulimia Nervosa

Este é outro transtorno alimentar muito conhecido e que também costuma se desenvolver durante a adolescência e início da idade adulta. Pacientes com essa condição ingerem, de forma recorrente, uma quantidade de alimento maior do que a maioria das pessoas consumiria num curto espaço de tempo ou até sentirem desconforto físico. Esses pacientes utilizam comportamentos compensatórios para evitar o ganho de peso [7]. São critérios diagnósticos e sintomas mais comuns [1]:

  • Episódios recorrentes de compulsão alimentar;
  • Comportamentos compensatórios inapropriados (vômito autoinduzido, abuso de laxantes, diuréticos ou outras medicações, jejum ou excesso de exercício físico) para prevenir ganho de peso ou ingestão energética;
  • Autoavaliação indevidamente influenciada pelo peso e forma corporal.

Os pacientes podem experimentar alguns efeitos colaterais decorrentes do uso de métodos purgativos, como irritação na garganta, desconforto gastrointestinal, desidratação e disfunções hormonais [6]. Além disso, ainda possuem risco aumentado de terem danos permanentes no esôfago, estômago e intestinos.

Transtorno de Compulsão alimentar

Este é um dos transtornos alimentares mais comuns e que pode se desenvolver em qualquer etapa da vida. Os pacientes têm sintomas similares daqueles diagnosticados com bulimia nervosa, no entanto, eles não restringem a alimentação ou recorrem a métodos purgativos para compensar os episódios de compulsão. Os critérios diagnósticos e sintomas mais comuns incluem [1]:

  • Ingestão, em um período limitado de tempo, de uma quantidade de alimentos definitivamente maior do que a maioria das pessoas consumiria em um período similar, mesmo sem fome;
  • Sentimentos de vergonha, repulsa por si mesmo, e culpa após comer excessivamente;
  • Não ter comportamentos compensatórios, como vômitos, uso de laxativos e prática de atividade física excessiva.

Pacientes com esse transtorno eventualmente podem também ter sobrepeso ou obesidade, que por sua vez, podem aumentar o risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2 [6,8].

Pica

Esse transtorno alimentar envolve o consumo, de forma persistente, de substâncias não alimentares ou nutritivas, como giz, sabão, tecido e papel [1]. Observa-se principalmente em crianças, gestantes, e em indivíduos com outros diagnósticos psiquiátricos [9]. A depender do que for ingerido, pode ocorrer intoxicação, infecções, lesões internas e até morte.

Qual a formação necessária para atender esses pacientes?

Se você deseja atender pacientes diagnosticados com algum transtorno alimentar, recomenda-se que faça uma capacitação em centros especializados ou nos diversos grupos de estudos sobre transtornos alimentares disponíveis no país. Essa é a melhor maneira de entender as necessidades desses pacientes, e assim oferecer um tratamento com base nas melhores evidências.

Considerando que cada paciente é único, a atuação do nutricionista nos transtornos alimentares exige conhecimentos em áreas como psicologia, mudança de comportamento e habilidades de comunicação [10].

Como os nutricionistas podem ajudar?

Ao trabalhar com pacientes com transtorno alimentar, é importante estabelecer um bom vínculo com o paciente, devido ao seu alto risco de recaídas..

É necessário estimular um sentimento de confiança entre você e o paciente para assegurar que ele se sinta confortável, amparado, e encorajado, isso enquanto atende às suas necessidades alimentares e nutricionais.

Aqui estão algumas das formas que os nutricionistas podem se envolver no tratamento e no processo de recuperação dos transtornos alimentares.

1. Acompanhar o peso

Parte do tratamento dos transtornos alimentares inclui o aconselhamento para recuperação do peso. Ainda que esse processo seja diferente para cada caso, um estudo refere que o ganho de peso estimado de 0.2 a 0.5 Kg/semana pode ser positivo e auxiliar no restabelecimento da menstruação [11].

No entanto, nem todos os pacientes ficarão confortáveis em ver o seu peso; neste caso, você pode “pesá-los às cegas”, ocultando o número na balança ou pedindo que se virem ao contrário durante a medição. Embora o registro do peso seja útil no processo de recuperação, ele não é o único parâmetro para alcançar sucesso.

2. Criar planos alimentares personalizados

Independentemente do tipo de transtorno alimentar que seu paciente tenha, você pode ajudá-lo a atingir suas necessidades energéticas e nutricionais através da criação de planos alimentares em conjunto [12].

Ao trabalhar com um plano alimentar personalizado, considere fazer com que seu paciente tenha refeições pequenas e mas em maior frequência, e que contenham alimentos variados e ricos em fibras e em outros nutrientes, com ênfase nos ácidos graxos [13].

Dependendo do paciente, pode ser necessário recomendar suplementos alimentares para ajudar a que alcancem as suas necessidades nutricionais.

Além disso, você pode querer que o seu paciente evite cafeína (pois pode prejudicar o apetite) e alimentos que contenham lactose, já que podem causar desconforto gastrointestinal; no entanto, essas recomendações dependerão das necessidades do seu paciente e do TA específico.

3. Adequar os padrões alimentares

Pessoas com transtornos alimentares geralmente têm muitos pensamentos negativos sobre os alimentos. Então, como nutricionista, uma das suas funções é ajudar seus pacientes a mudarem as crenças negativas para passarem a enxergar os alimentos como uma fonte de nutrição e prazer, assim como ajudá-los a perceber os sinais de fome e saciedade [10].

Como muitas pessoas com TA sentem culpa ou vergonha em relação a certos alimentos, você pode ajudar seus pacientes a entenderem que a comida proporciona sustento e prazer, incentivando o pensamento de que “toda comida é boa comida”.

Ao longo do acompanhamento nutricional, você também pode ajudar seu paciente a se sentir mais confortável com atividades relacionadas aos alimentos (como cozinhar, fazer compras ou comer fora).

4. Trabalhar em conjunto com outros profissionais de saúde

Dependendo da gravidade do transtorno alimentar do seu paciente, ele pode exigir diferentes níveis de atendimento e tratamento, como tratamento hospitalar, tratamento residencial, internação ou acompanhamento ambulatorial.

Como nutricionista, você colaborará com outros profissionais de saúde para garantir que as necessidades do seu paciente sejam atendidas. Essas necessidades podem variar entre cuidados constantes 24 horas por dia, consultas de algumas horas todos os dias ou até apenas uma vez por semana.

Resumo

Os transtornos alimentares são complexos e podem afetar cada pessoa de maneira diferente. Os nutricionistas desempenham um papel fundamental no tratamento e no processo de recuperação, ajudando os pacientes a melhorar o relacionamento com a comida, ajustar os padrões alimentares e a recuperar o seu peso. Estes aspectos, entre muitos outros, fazem do seu papel um aspecto vital para aqueles que são diagnosticados com transtornos alimentares e que, com sua ajuda, podem se recuperar totalmente.


Estamos sempre trabalhando para trazer o melhor conteúdo sobre nutrição, por isso agradecemos receber sugestões ou comentários que você possa ter! Envie uma mensagem para info@nutrium.com.

Ainda não experimentou o Nutrium? Agora é o momento! Você pode experimentar todas as funcionalidades do Nutrium gratuitamente durante 14 dias, desde consultas, planos alimentares, análises nutricionais, videochamadas, website e blog, apps móveis para o paciente e profissional, e muito mais! Experimente agora gratuitamente!

Referências:

  1. American Psychiatric Association. (2022). [Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., Text Revision)]. Washington, DC.

  2. Culbert, K. M., Racine, S. E., & Klump, K. L. (2015). Research Review: What we have learned about the causes of eating disorders - a synthesis of sociocultural, psychological, and biological research. Journal of child psychology and psychiatry, and allied disciplines, 56(11), 1141–1164.

  3. Keel, P. K., & Klump, K. L. (2003). Are eating disorders culture-bound syndromes? Implications for conceptualizing their etiology. Psychological bulletin, 129(5), 747–769.

  4. Marsh, R., Stefan, M., Bansal, R., Hao, X., Walsh, T., Peterson, B. (2013). Anatomical Characteristics of the Cerebral Surface in Bulimia Nervosa. Biological Psychiatry, 77(7), 616-623.

  5. Nagl, M., Jacobi, C., Paul, M., Beesdo-Baum, K., Höfler, M., Lieb, R., & Wittchen, H. U. (2016). Prevalence, incidence, and natural course of anorexia and bulimia nervosa among adolescents and young adults. European child & adolescent psychiatry, 25(8), 903–918.

  6. NIMH Information and Publications/ (2021). Eating Disorders. National Institute of Mental Health.

  7. Bonini, A.F., Alckmin-Carvalho, F., Rafihi-Ferreira, R.E., Melo, M.H.S. (2018). Evoluçao dos critérios para o diagnóstico de Bulimia Nervosa: revisao sistemática. Revista brasileira de psicoterapia, 20(2):65-83

  8. Kyrou, I., Randeva, H. S., Tsigos, C., Kaltsas, G., & Weickert, M. O. (2018). Clinical Problems Caused by Obesity.

  9. Advani, S., Kochhar, G., Chachra, S., & Dhawan, P. (2014). Eating everything except food (PICA): A rare case report and review. Journal of International Society of Preventive & Community Dentistry, 4(1), 1–4.

  10. Timerman, F., Alvarenga, M.S., Fabbri, A., Costa, A.C., Pisciolaro, F., et al. (2015). Nutrição comportamental no tratamento dos transtornos alimentares. In: Alvarenga, M.S., Figueiredo, M., Timerman, F., & Antonaccio, C. M. A.(2015). Nutrição comportamental. São Paulo: Manole.

  11. Halmi, K.A. Classification, diagnosis and comorbidities of eating disorders: a review. In: Maj M, Halmi K, Lopez-Ibor JJ, Sartorius N, eds. Eating Disorders. Vol 6. England: John Wiley and Sons Ltd; 2003:1-33.

  12. Ozier, A. D., Henry, B. W., & American Dietetic Association (2011). Position of the American Dietetic Association: nutrition intervention in the treatment of eating disorders. Journal of the American Dietetic Association, 111(8), 1236–1241.

  13. American Dietetic Association. Nutrition Care Manual. Anorexia nervosa: nutrition prescription. Accessed January 14, 2022